Estrelas Além do Tempo e o racismo nosso de cada dia.

6 de maio de 2017

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Eu e minha esposa assistimos ao filme Hidden Figures, traduzido como Estrelas Além do Tempo. Filme de 2016, com direção de Theodore Melfi.

O filme se passa em 1961, durante a Guerra Fria, onde os EUA e a União Soviética disputavam a supremacia na corrida espacial. Como pano de fundo dessa disputa, vemos as marcas profundas da luta por direitos raciais em que os negros americanos estavam envolvidos.

A protagonista Katherine Johnson (Taraji P. Henson), juntamente com suas amigas, Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), trabalham para a NASA, numa condição inferior, refletindo que dentro dos órgãos do governo americano a segregação era assustadoramente explícita como nas ruas dos estados do Sul.

Fica claro que, como mulheres negras, precisavam ser pelo menos três vezes mais competentes do que qualquer homem branco, ou se fazerem absolutamente necessárias para que seus esforços fossem, não reconhecidos, mas tolerados e utilizados.

Mas embora seja um filme lindo que fala sobre competência, esforço pessoal e um  inconformismo com a situação geral na qual estão enxertadas, o que nos saltou aos olhos não foi isso. O que fez nosso coração palpitar mais forte e nossos olhos marejarem foi uma das piores facetas do ser humano, representada naquele momento pelo norte americano branco: o racismo.

A discriminação de uma pessoa a um nível sub-humano não pode jamais fazer parte do coração de um verdadeiro seguidor de Cristo.

Um bebedouro para “gente de cor”, cafeteira e caneca separadas, assentos no fundo do ônibus, empregos reservados apenas para negros, salário inferior ao de um homem branco mesmo quando ambos executavam a mesma função, nos chocam profundamente (pelo menos a nós dois), principalmente quando nos damos conta de que algo do tipo ocorreu nesse nível a cerca de cinquenta anos atrás apenas!

Mas eu não pretendo discorrer sobre as consequências sociais do racismo norte americano, ou mesmo sobre o apartheid ocorrido na África do Sul, eu quero chamar a sua atenção para uma frase dita durante o filme e, prometo, vou pegar leve no spoiler.

Em uma cena, uma mulher branca, em posição hierárquica superior a uma mulher negra, lhe diz “eu não tenho nada contra você”. A mulher negra responde, “tudo bem, eu sei que você acredita nisso…”.

Nossa sociedade é amplamente miscigenada. Somos resultado de uma mistura maravilhosa de negros, índios, europeus, americanos e sabe-se lá mais que tipo de sangue corre pelas nossas veias, não é? Mas eu queria que pensássemos um pouquinho sobre o racismo e discriminação que habita dentro da gente, e é exteriorizada por coisas tão sutis, que nós nos permitimos exalar eventualmente e testar alguns limites, até mesmo pra ver quem são aqueles que concordam conosco.

Quantas vezes nos divertimos contando ou ouvindo piadinhas onde “um negro só é gente quando está no banheiro e alguém bate na porta: – tem gente”? Não é crueldade, é piada, não é mesmo? Se alguém inferiorizasse a deficiência do seu filho ou de sua mãe, seria tão engraçado quanto, não é? Afinal é só uma piada.

Quando alguém da família diz em tom jocoso a máxima “parece serviço de preto”, ao constatar que algo não foi feito com excelência, é apenas uma expressão popular, onde não há o intuito de se ofender ninguém; afinal, na hora em que contamos essas piadas ou proferimos algum absurdo racista não havia nenhum negro entre nós, concorda?

A questão não é se havia um negro entre os piadistas (e acredite, eu já assisti casos em que havia). A questão é tais coisas não deveriam habitar o coração de alguém que se diz transformado pelo toque de Deus na sua vida!

A renovação do entendimento, expressão fixada por meio do Ap. Paulo, deve ser completa no que tange minha compreensão acerca do que Deus fez por mim e em direção ao meu próximo e as minhas preconcepções ao seu respeito.

Se Jesus amava prostitutas, adúlteras, corruptos, ao ponto de assentar com eles, perdoar seus pecados, comer na mesma mesa e lhes apresentar as verdades do Seu Reino, o que ele próprio diria se seus seguidores, no mais íntimo do seu ser, se dessem ao luxo de tripudiar, desmerecer, humilhar publicamente ou não, outros seres humanos apenas por causa da cor de sua pele?

No Resistência Podcast #30 fomos confrontados com a forma sub humana com a qual são tratados os detentos brasileiros. Imagine o conflito que deveria surgir em minha própria mente, uma vez que eu próprio sou policial? A única coisa que me permite olhar com amor a um bandido preso é o Espirito Santo que habita em mim. Não posso sequer conceber desejar a morte a um ser humano, que não conheceu a Cristo, e que foi feito, assim como eu, à imagem e semelhança de Deus. O que não quer dizer que meu coração não seja eventualmente inclinado a dizer: “Tem mais é que morrer mesmo…

Sempre teremos justificativas para nossas atitudes, piadinhas, convicções e opiniões. Mas uma vez que somos alcançados pela Graça divina, deve ser um exercício constante nos livrarmos de tudo aquilo que nos faz tratar nosso próximo como um ser inferior. Nem o pecado alheio deve ser razão para que nos fechemos em nossos templos. Só conhecemos tais pecados porque eles são exteriorizados! O fato de eu não saber o que habita o interior do coração do pastor, ou do ministro de louvor, não faz com que ambos sejam menos pecadores, assim como eu próprio.

Minha oração é para que o Espírito Santo que nos une, use seus meios para que o nosso coração esteja sempre movido em direção a unir, ajuntar, amar, defender o fraco, acolher o necessitado e a jamais fazer troça da condição de outro ser humano, principalmente se for algo tão banal quanto à cor de sua pele.

Ah, o filme está recomendadíssimo!

Rodrigo Oliveira

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